- Sofia (via sarcasmoeoutrosorgasmos)
Carta à neurose
Luís,
Nunca aprenda a voar. Não tenta entender as dores e os manuais que isso é besteira e enrolação. A gente perde tanto tempo. Não tenta escrever o que lateja. Não se diminua ou se esconda covardemente, feito eu, em metáforas tristes e vagas. Eu não sou mar, não sou lua ou capitão. Não tenho navio. Não existe porto.
Ou direção.
Não se enrole feito eu, que precisa de tantas linhas pra dizer um eu te amo. A gente perde tanto tempo. Como se fosse possível perder.
Nos perdemos também.
Eu te amo.
Little Bird, broken wings
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Ana L. Alves
Carta ao amor
Luís,
Essas palavras não serão gentis, meu grande amor. Não serão brisa, como quando abríamos a janela às três da manhã e eu roubava todas as estrelas para mim. E o vento, o vento derrubava meu cabelo, o frio nos espancava e mesmo assim não cedíamos. Querido, essas linhas não serão quentes e confortáveis como nossos espaços e a forma que a cama toma do nosso corpo. Não podem ser aquele beijo que você soprava nos meus tombos pela pele. Não podem porque as palavras tem febre, as letras devem cortar para chegar ao coração. Entende? Preciso te tocar, meu bem, e para isso tem que doer. Me perdoa por não hesitar nem um passo atrás. Me perdoa também pelo cinismo e por te escrever enquanto você dorme no chão da sala. Me perdoa pelos atos premeditados, pelas palavras que descem rasgando à garganta. Meus dedos doem, eu tremo também. Mas preciso ser corajosa, minha luz. Preciso aproveitar a falta de piedade e o medo que me toma toda vez que você me conta de suas dores. Eu quero dizer, todas as vezes que você encostava o ouvido no meu peito só pra saber se ainda batia, eu tinha vontade de não estar mais viva. Eu via seus passos e quantos cigarros fumava por dia. E você segura meu pulso desse teu jeito orgulhoso e prepotente. Não posso. Como te mostro que te amo? Como posso ir embora sem que duvide do que te sussurro quando você finge que dorme, só pra ouvir o que eu não confesso à luz do dia. E você inventou de me chamar de little bird. Amor, eu não sei cantar e não gosto dessas jaulas. Não gosto. Tenho horror a ir embora e lembrar que você não sabe escolher uma camisa, que só consegue dormir bem no meu colo. E seus ataques de asma? Como eu faço? Sua testa molhada de suor naquelas tardes de Agosto, eu grudada pele à pele com teu corpo, nossos beijos em meios de frases, você contando incansavelmente meus sinais de pele, gostando de todas as cores que pinto o meu cabelo, negando todo o meu peso, me sustentando quando não consigo ficar em pé. Luís, você faz tudo errado de um jeito muito certo.
A verdade é que quando era pequena, minha mãe sentava no pé da cama e lia Shakespeare, Heathcliff e Catherine, o sofrimento de um jovem chamado Werther. O amor sempre associado com um final triste. Nunca existiu para sempre nas minhas histórias. Consegue entender? Eu não sei em que filme vi, em que dia minha consciência aceitou que não consigo viver com esses infinitos. E queria tanto conseguir contigo. Se lembra daqueles dias em Paris? De como você me beijou primeiro o ombro, depois meus olhos que se fechavam enquanto minha boca se abria, depois meu queixo, você subiu e beijou meu nariz, meu pescoço, contornou todo o braço e depois sorriu. Seu sorriso que se abria junto da sua boca e que se encontrava agora com a minha, também era a nossa vontade de pertencer. De sermos eternos. Da certeza que a gente procura a vida toda e que só consegue ser palpável durante dois ou três segundos.
Eu vou embora Luís. Eu vou te deixar. Não sei que dia e quando terei coragem. Quando a coragem será mais forte que o amor. Enquanto isso te escrevo, te assisto, choro no seu peito, deito do seu lado no chão da sala, te acordo e sussurro que te amo. Porque te amo.
E não sei, fico com medo de imaginar você chegando ao fim dessa carta e se desesperando, de declarar o fim aqui e dessa vez, eu me desesperar. Te acordar do tapete e te dizer para me prender ao pé da cama. Dizer que é mentira. É mentira e que passa. Tranca as portas, fecha as janelas, esconde as chaves, meu bem.
Como posso ser tão forte e ter tanto medo assim, tudo ao mesmo tempo? Como é possível duas palavras tão opostas caberem em uma mesma linha?
Te escrevo mais. Não te deixo com só um bilhete ou somente uma carta que você merece mil, no mínimo. E sou pedante, esquecida. Fico me explicando, deixo de dizer tanta coisa importante.
Falta tanto amor.
Falta tanto, amor.Quantas cartas são necessárias para conter tudo o que sinto?
Elizabeth.
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Ana L. Alves
Era a primeira vez que estava em Paris. Eu tentava me imaginar em 1930 com vitrolas e ruas estreitas, chapéus que se levantavam a cada passageiro e eu que podia viver com meus ideais de beleza, verdade e amor, sem ser vista como iludida ou sonhadora. Tinha ficado no centro como todo turista. Mas fugia para a rua Nostalgie todos os dias. E ficava achando engraçado querer estar ali e pertencer, porque não tinha saudade de nada.
O canal do Sena que cortava a França passava também atrás da minha rua. Eu colocava os pés na água, tombava o corpo para trás e fingia me isolar do mundo. Mas eu nunca fui imune. Passava a mão no cabelo esquecendo mais uma vez que agora estava sem graça e curto e era culpa minha - e de uma noite vazia com uma tesoura na mão -. Larguei o jornal no outro dia e corri para a Nostalgie.
Você sentou do meu lado. Eu senti só a tua presença. Sentei e tentei ser forte também, conseguir quem sabe, olhar nos teus olhos. Verdes, eram verdes e durou um segundo. Você ficou contando as sardas do meu rosto sem o menor pudor e eu só consegui rir da sua coragem.
- Você parece triste.
Eu fiquei surpresa com a força que ele me empurrava. Sem piedade.
- Eu sou triste.
- Depressiva?
- Não… Só triste.
- Elizabeth.
- Eu sei. Luís.(…)
Ana L. Alves
Carta 13
Henrique,
Há meses que escrevo cartas e que nunca terei resposta. Já sentiu essa angústia, esse terror de cada ato ser em vão, de que cada passo não servirá de nada. Que minhas palavras em que derramo e devoto todo meu amor não alcançará nem mesmo a esquina de onde vivo, quem dirá as estrelas que sonho toda noite. Não é desesperador? Eu nunca terei uma resposta. Compreende isso? Nenhum grito será alto o suficiente. Nenhuma palavra será tocante ou tocada, nenhuma dor será repartida. Eu testo todas as chaves até abrir a janela do meu décimo andar. A janela que há meses fechada e ignorada emperra e também não quer me responder. Mas eu forço, abro a cabeça também, me debruço debochando da minha fraqueza e testo até onde sou capaz de ir. Até onde somos? Leio Thoreau, Byron e tenho vontade de pegar um trem para o Alasca ou lugar nenhum. Deitar na grama e sentir essa paz tão comentada. É verdadeira? Mas tenho medo de silêncio e acho que sentirei falta de todas as brigas e trânsito e calor que quase me enlouquece aqui na Espanha. Comecei a pintar e descobri que não sou bom em nada. Pinto com raiva e não consigo ser racional. Depois me canso, deixo sempre tudo pela metade para não ter esses fins inevitáveis. Consegue enteder meu plano? Deixo tudo pela metade enganado a morte, os planos de Deus, a sequência lógica dos fatos. Não termino simplesmente. Não existe final em nada que faço. E agora? Se eu não sei o final de Cem anos de solidão então é porque não existe final. Serão então Mil anos de Solidão. García Marquez me agradeceria se soubesse, tenho certeza. Assim tudo pode ser imortal. Também atirei todos os relógios porque briguei com o tempo. Quem há de me controlar e dizer que perdi mais um segundo? Quem vai me dizer que não apertei o braço de Eliza antes dela dar seu segundo passo ficando fora de nossa casa? Quem vai dizer sem os toques das horas que não a impedi, que gritei seu nome, que pedi que ficasse?
Eu entendo e aceito seu pedido. Sou ser melhor amigo. Mas saiba que agora sou pela metade. Não escondo que tenho inveja de você, mas estou feliz. Do meu modo, você sabe. Tenho saudades de casa e do nosso tempo na faculdade. Não sabia que aqueles dias jogando golfe nos telhados de madrugada seriam finitos. Porque ainda acredito em eternidade? Porque ainda me peso e me afundo tendo a certeza que nada irá mudar? Porque sou assim tão fatalmente extremista e ridiculamente idiota? Você provavelmente deve estar rindo das minhas neuroses e exageros ou então esteja preocupado pensando há quantos dias não tomo banho. Também não sei, mas o ponto não é esse. Foco henrique.
A vida sem Liz é uma merda. Uma merda mesmo. E não quero ficar bem. Sei que posso, que sobrevivo e ainda tenho os trilhos. Mas quero olhar um pouco mais o poço, ver até onde fui e conferir se ele vai mais fundo. Me deixa cair. Só me deixa.
Ninguém mais tem aquele olhar distante. Ninguém mais tem aquelas sardas e aquele cabelo que o vento abria e me mostrava o mar. Eu encostava o ouvido no peito dela e isso era viver. Era aquele maldito momento em que eu tinha consciência que estava vivendo. E não quero mais ninguém. Porque ninguém tem o cheiro doce de Liz, ninguém faz chantagem emocional com aquele bico, ninguém mais senta no meu colo e inventa histórias. Ninguém tem o nome dela ou a voz rouca e o tom que ela pondera a seus desejos. Entende? Ninguém tem a porra da alma dela. E isso me enlouquece.
Eu finjo que não sei e me arranho, soco as paredes como La Motta, grito no parapeito só pra ver se ela não entra pela porta e briga comigo por tamanha infantilidade e desespero.
“Cala a boca Luis. Tá louco? Quer acordar os vizinhos?”
Eu quero acordar o mundo, eu diria. E às vezes acho que consiguiria. Mas a porta continua fechada. Os quadros metade pintados, metades como meu coração. A chaleira apita e minha mãe chora pedindo para que eu fique um pouco com ela, que estou muito magro e feinho. E que não é culpa de Deus. Que preciso voltar para igreja. Digo: Sim mãezinha, vou comer mais, vou na igreja semana que vem. Prometo, prometo. E desligo logo que não suporto e quero de novo a solidão.
Ando evitando Frances e acho que ela percebeu porque não me liga já faz semanas. Tenho medo de ficar muito perto porque ela tem um traços de Elizabeth e não gosto disso. Não gosto. Não é Liz. É imitação, resultado de anos de amizade, coincidências, gostos em comum e nada disso faz dela Eliza. Ela também não canta, mal sabe assobiar. Então não insista, por favor.
Comprei o terno. É bonito e decente e Sophia não vai reclamar. Aliás fico imaginando como é a mulher da sua vida e se ela também sabe cantar.
Apareço no casamento, eu juro.
Eu não tô bem, seu babaca. Aparece para gente beber.
Um único abraço para você que não faz falta. Tudo bem, faz falta um pouco.
Luís.
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Ana L. Alves